
Que o Branco Melo dos Titãs é um cara ousado, todo mundo já sabe. Mas dessa vez ele resolveu ousar diferente, e como ele já tinha filmado por vários anos os bastidores da sua banda, ele resolveu fazer dessas imagens um filme.
Eu assisti a pré-estréia do filme Titãs – A vida até Parece uma Festa e achei o filme muito foda. Um filme obrigatório pra quem gosta de música, principalmente pra quem gosta de Rock´n Roll. Com cenas pra lá de hilárias e emocionantes o filme ainda conta um ótimo ritmo na edição, e outra coisa que me chamou bastante atenção, o tratamento dado ao áudio do filme.
Esses e outros detalhes você sabe agora ao longo desta entrevista com o Branco Mello dos Titãs, que pra mim é a maior banda de rock do Brasil de todos os tempos.
BL: Branco, como foi essa história de comprar uma câmera e sair registrando todas essas imagens da banda no palco, back stage e camarim? Geralmente as bandas querem privacidade nesses lugares, e vc vem expor pra galera todo esse lado num filme que vai correr todo o mundo mostrando isso.
BM: Eu comprei a câmera em plena turnê do álbum Cabeça Dinossauro. Era uma novidade você poder filmar qualquer coisa e logo depois assistir as imagens com áudio e em cores na televisão. Comecei a filmar tudo que rolava com os Titãs e logo ví que estava registrando momentos que poderiam servir no futuro para fazer um filme diferente. A idéia já era mostrar o lado engraçado e bem humorado da banda.
BL: Putz, então desde o começo das imagens você já tinha na cabeça tornar isso um filme mesmo?
BM: Sim , só não sabia quando começaria a montar o filme, nem que a banda iria tão longe.
BL: E o processo de separar todo esse material, deve ter levado um século heim?
BM: A Angela Figueiredo que é minha mulher e produtora do filme, começou a decupar as imagens em 1991, e a partir de 2002 ela veio arquivando todo o material que chegava e digitalizando para MINI DV e DV CAM, foi quando entramos em produção. Eram mais de 200 horas e eu e o Oscar assistimos juntos todo o material, já fazendo uma pré seleção das imagens. Na verdade passamos seis anos para chegar no corte final.
BL: No filme tem umas cenas hilárias que eu morri de rir, como aquela que você, o Sérgio Britto e o Paulo Miklos estão falando todos ao mesmo tempo! Vocês tavam bem loco ali né?
BM: Por incrível que pareça estávamos bem caretas naquele dia. Aquela é a forma como habitualmente discutimos.
BL: Hummmm sei, outra cena muito legal é a do Liminha dando uma puta dura no Charles Gavin porque ele está enchendo de viradas de bateria um música que não precisava tanto. O Charles topou na boa colocar essa cena?
BM: Topou na boa. Ele assumiu a teimosia e disse que mereceu tomar um esporro. Achei bem legal isso da parte dele, pois a cena é importante para o filme.
BL: E agora depois de ver o filme pronto no cinema, existe alguma cena que você tiraria ou gostaria de acrescentar?
BM: Sempre achei que o filme deveria ter noventa minutos. Muitas cenas boas ficaram de fora, provavelmente virem bons extras num futuro dvd.
Quanto as cenas que estão no filme, eu não tiraria nenhuma.
BL: Agora falando do áudio. Como foi o processo de separação do material? As masters, fitas VHS foram fáceis de se achar?
BM: Fui atrás das masters para abrir em 5.1. Achei algumas e outras estão perdidas. Passei uma tarde com a Angela procurando as fitas num lugar gigantesco onde a WEA mantém as masters de todos os seus artistas.
Achamos algumas, outras não. O que servia ao filme, mandamos para o Denilson Campos, que fez a mixagem. Ele não remixou as faixas mas abriu em 2.0 na frente, e jogou apenas alguns instrumentos e vozes nos outros canais. Foi uma grande sacada dele e o resultado acabou ficando uma porrada.
BL: Que legal, eu particularmente prefiro dvds com um estéreo bem legal e as caixas de surround mais para efeitos també! É claro que houve um carinho especial para o áudio, como nas fusões do mono para o estéreo. Como foi o processo de mixagem? Você acompanhou tudo?
BM: Eu e o Oscar fizemos praticamente toda a edição de áudio enquanto montávamos o filme no Final Cut. Entregamos para o Denilson, que no seu estúdio no Rio, limpou alguns ruídos, mexeu em frequências, clareou alguns diálogos e mixou o filme inteiro mesclando o que era o som original, com os áudios dos álbuns e das masters. Depois disso, fomos os três para a sala de cinema do estúdio Mega em São Paulo para fazer os últimos ajustes. Ficamos uma semana acertando os detalhes da mix.
BL: O Oscar Rodrigues Alves que dividiu a direção com você participou dessa etapa do áudio?
BM: O Oscar foi fundamental na parte de áudio. Além de ser músico e ter muita experiência em montagem de videoclipes ele uma uma obsessão em busca do sinc perfeito. O filme não tem nenhuma cena fora de sinc. Prá um filme musical como esse, isso é um capítulo a parte.
BL: Houve alguma cena que ficou de fora por causa da qualidade ruim do áudio?
BM: Não, as VHS tinham uma boa qualidade de áudio. A cena do Cabeça Dinossauro na Chapada dos Guimarães tem uma locução do Charles, que não dá para entender direito por causa do barulho da cachoeira, então acabamos legendando. Ficou muito legal.
BL: Valeu mesmo heim Branco! Eu queria dizer aqui pra quem não conhece o Branco Mello que esse cara é muuuuutio gente fina, e ele respondeu a entrevista diretamente de João Pessoa em meio aos shows do Titãs e a divulgação do filme. Só a última então, a vida até parece uma festa, ou é uma festa que tem umas pequenas pausas no meio?
BM: Acho que é um pouco as duas coisas. Ela realmente até parece uma festa.